Logo nos primeiros episódios, escrevi no Twitter: “Perspectiva é o modo pelo qual alguma coisa é vista. Em artes, é dimensão e profundidade. Há muito sobre perspectiva em A Piece Of Your Mind, em técnica como na fotografia e também no enredo e desenvolvimento dos personagens. É sobre entender emoções e sentir tanto quanto o outro.” e ao final do drama, tenho ainda mais certeza sobre essa mensagem.

Fazia tempo que eu não ficava tão apaixonada por um drama como fiquei por A Piece Of Your Mind. Se você me acompanha nas redes sociais deve pensar “ela ainda não parou de falar disso”. 🙂 Tudo bem, tudo bem, eu entendo se você estiver pensando assim. Se você não me viu falando nada desse drama ainda, esse post é uma ótima oportunidade para conhecer essa beleza – que eu venho chamando de beleza incompreendida. Vem comigo, que vou explicar.

A Piece of Your Mind
반의 반
Episódios: 12 | Emissora: tvN | Ano: 2020

Sinopse: Essa é a história de romance entre Ha Won (Jung Hae In) e Han Seo Woo (Chae Soo Bin). Ha Won é um programador de IA (Inteligência Artificial) e é o fundador da M&H Company. Ele é uma pessoa consistente com um bom coração mas que foi muito machucado no passado. Enquanto isso, Han Seo Woo trabalha como engenheira de som num estúdio voltado para música clássica. Sua vida é instável mas ela é uma pessoa positiva.

Um aviso rápido para quem ainda não viu o drama: A Piece Of Your Mind tem um ritmo diferente, é um tanto lento (o famoso slow burn) e melancólico, é focado em sentimentos profundos, mesmo trazendo mensagens sobre cura e amor, pode não agradar quem prefere tramas agitadas.

Por conta desse slow burn, o drama não atingiu grande número de audiência na Coreia, o que resultou na redução de 16 para 12 episódios. No começo, fiquei bem revoltada com a decisão da tvN, por medo da história se perder, no entanto, foi bem construída nos episódios finais. Só fiquei triste porque tivemos menos episódios dessa beleza incompreendida, mas ao mesmo tempo gostei do resultado final.

Para mim, a única falha desse drama foi ter inserido o dispositivo de inteligência artificial e ter levado isso a nível absurdo. Apesar de toda a tecnologia avançada em AI, os acontecimentos da trama não justificam tamanha incoerência. Se fosse um drama de ficção científica, tudo bem. Mas no caso, não era. Então esse é um ponto negativo sim, porém, é algo que não é o foco da trama. Então fiz questão de ignorar o quão sem sentido é o dispositivo e focar no resto do drama que aí sim, é a perfeição.

A Piece of Your Mind é o que algumas pessoas chamam de “healing drama” (drama de cura). Eu descreveria como um café quentinho em um dia bem frio, ou como pedaço de bolo que acabou de sair do forno, ou algo que você gosta muito te fazendo feliz num dia que você não está bem. Apesar de toda a tristeza envolvendo os personagens, ainda é reconfortante de certa forma.

Tudo tem um toque artístico e poético. A temática envolve música clássica e o roteiro faz uso da importância dos sons, das vozes e da música como um tipo de tratamento para corações tristes. Aproveito para dizer que toda a trilha sonora desse drama é a perfeição e você pode ouvir no Youtube ou no Spotify.

Há também o cuidado com a fotografia e os locais de filmagem, pois tudo tem um significado muito profundo. Através de flashbacks, alguns momentos da história vão de desvendando aos poucos, e as conexões entre cenas do passado e presente se fazem até mesmo através das cores, representando as emoções dos personagens. É talvez, imperceptível para todos, mas ao prestar atenção nesses detalhes, tudo fica ainda mais bonito. .

“O Sol nascendo e se pondo, o vento soprando e a chuva.
Tudo isso. Todas as coisas que você viu e ouviu.
São todas as minhas mensagens te dizendo pra ficar bem, não importa onde esteja.” – Ha Won

Assim como não há muitos personagens, também não há muitos locais de filmagem. Podemos reconhecer os mais icônicos: o estúdio, a cafeteria, a casa do Ha Won, a pensão… Todos eles carregam muito significado. A questão das perspectivas aqui vai desde a técnica artística na direção do drama – que muitas vezes certas cenas falavam mais que longos diálogos. A história aborda muito sobre como cada pessoa pode enxergar e lidar de forma diferente com os sentimentos e as emoções, seja dor, alegria, amor… Assim como cada pessoa pode enxergar uma situação de um jeito, e por isso, a importância de se colocar no lugar do outro, de tentar enxergar com os motivos e as condições do outro. Se o ângulo muda, a foto também muda.

Tem uma fala da Ji Soo que eu gosto muito por representar bem como o sofrimento faz parte da nossa vida e como lidar com ele também nos faz seguir adiante:

“Sou suficientemente infeliz e suficientemente feliz. Estou indo bem.”. – Kim Ji Soo

Os personagens são falhos e imperfeitos, o que os tornam realistas, humanos e gente como a gente. Não há um herói, e por mais que os momentos de ficar com raiva de alguns existam, quem somos nós para considerá-los vilões? A história mostra justamente o crescimento deles, a culpa de si e o ressentimento, mas também o perdão e toda a liberdade que vem com ele.

“Você é preciosa para si mesma… Por que está se machucando se é tão preciosa?” – Eun Joo

Moon Ha Won (Jung Hae In) viveu na Noruega durante sua infância e adolescência. Lá ele conheceu Kim Ji Soo (Park Joo Hyun), que era sua única amiga coreana. Por isso, eles criaram uma conexão especial, ela se tornou seu primeiro amor. Ha Won e Ji Soo se separaram após a morte de sua mãe. Mais tarde ela se casou e eles não se viram mais, embora ele ainda tivesse sentimentos por ela.

Ao criar o dispositivo de AI, ele quer gravar a voz da Ji Soo. Com isso, Han Seo Woo (Chae Soo Bin) a engenheira de som do estúdio é envolvida na vida dos dois. Ela rapidamente se torna amiga da Ji Soo, elas criaram uma amizade linda, compartilhando seus traumas e sentimentos. Ao descobrir que sua nova amiga e o Ha Won tinham um passado complicado, Han Seo Woo resolve ajudar o casal – que não é, nem nunca foi um.

E a partir dessa ajuda, Han Seo Woo traz com ela esperança, carinho e amor, não só pra Ha Won e Ji Soo como para Moon Soon Ho (Lee Ha Na) que é chamada carinhosamente de sobrinha do Ha Won, já que sua vó o adotou na Coreia, e também para Kang In Wook (Kim Sung Gyu) marido da Kim Ji Soo.

A trama é mais que o romance que está para acontecer entre Ha Won e Seo Woo. É sobre as conexões dos personagens e a complexidade que há em seus relacionamentos.

Han Seo Woo é uma personagem adorável! Ela está sempre pronta a ajudar, é amigável e calorosa. Ela se conecta facilmente com as pessoas e, com isso, sente muito por todos. Ela é extremamente empática e absorve muito os sentimentos das pessoas ao seu redor. Apesar de já ter uma vida complicada com seus próprios traumas, ela ainda absorve toda a dor da Ji Soo e Ha Won. E o que eu gostei muito foi que o roteiro desenvolveu bem essa positividade dela e também o sofrimento que vem com ela, mostrando que apesar da personagem ser essa fonte de esperança e ânimo para seus amigos, ela também precisava dessa “cura”, ela precisava de um tempo para recuperar suas energias, ela precisava de esperança para si também.

“Eu posso sentir a dor dele” – Han Seo Woo

E como não amar Chae Soo Bin não é mesmo? A interpretação dela foi tão boa como sempre, mas aqui pudemos ver uma personagem que, às vezes, se frustrava e surtava, logo sua atuação brilhou ainda mais. Algumas cenas em especial ficarão sempre guardadas na minha memória. Uma delas é no final do segundo episódio, quando ela recebe uma ligação traumática da Ji Soo e está no meio do rua, começa a correr e chorar desesperadamente sem saber o que fazer numa situação tão complicada como aquela. Senti a dor daqui.

Ha Won é um homem igualmente adorável como a Seo Woo, mas ele está completamente perdido na vida. Além de ter perdido sua mães quando era adolescente na Noruega, até hoje não entende como a morte dela aconteceu, e seu primeiro amor e melhor amiga não tem mais contato com ele. Justamente por sentir muito a falta de pessoas que ele amava, é que ele resolve criar aquele dispositivo, com intenções de ajudar pessoas que precisam pelo menos ouvir a voz de alguém. O Ha Won no começo é um tanto frustrante, mas como julgar? Não o condeno. Ele tinha várias situações não resolvidas com a Ji Soo, vários traumas e ficava sempre remoendo o passado. Por isso, nos primeiros episódios a versão “Antes do Amanhecer” dele é muito melhor – e só quem assistiu ao drama vai entender o apelido fofo.

O personagem de Jung Hae In não tem muita diferença de seus últimos papéis, então o que posso dizer? É Hae In, e eu gosto dele atuando, mesmo em personagens parecidos. Aqui, talvez ele fosse um tanto mais melancólico. Continuamos no apoio e na torcida para um Hae In vilão quem sabe? – Alô Prison Playbook.

O romance acontece naturalmente e gradualmente, após vários encontros, desencontros, compartilhamento de pensamentos, de traumas e principalmente, com sinceridade dos sentimentos. Um romance doce transmitido lindamente ao telespectador através de olhares e abraços cheios de doçura – o que me fez ficar nostálgica já que lembrou muito os dramas mais antigos.

Acho que a melhor parte de acompanhar o crescimento desse relacionamento foi graças a direção que com muita sensibilidade fez cenas belíssimas repletas de emoções. Quando eu falo que os locais em que a história se passa são importantes e cheios de significado, é justamente porque eles representam porque eles representam o que os personagens sentem. Quando Ha Won, por exemplo, deixa de frequentar um certo lugar que era seu “refúgio” para momentos de dor, e vai para outro certo lugar, é aqui que podemos ter a certeza da mudança de seus sentimentos, assim como Han Seo Woo teve, e resultou numa linda cena que não precisou de nenhum diálogo. (Episódio 10)

Agora sobre a Moon Soon Ho, personagem que gerou uma certa polêmica em determinado momento da trama, mas que assim como os outros, não merece ser condenada, justamente por sua perspectiva da situação. A personagem é sempre alegre, sempre positiva, amante das plantinhas e com isso trazendo analogias dos personagens com plantas que eu tanto gosto. A atriz e é a Lee Ha Na e adoro ela em personagens mais leves assim.

O diálogo sobre uma pequena muda de Eucalipto (Episódio 3):

“- É possível? Podemos salvá-lo?
– Eles sobrevivem mesmo com um pouquinho de amor. Eles não deixam seus esforços se desperdiçarem.”

E mais uma:

“Recebi luz do sol e me reguei. Ninguém mais fará isso por mim.”

Sobre o marido da Ji Soo, o Kang In Wook, ele é provavelmente o personagem com mais culpa de si em toda essa história. Se com razão ou não vai do ponto de vista de cada telespectador. No meu caso, acredito que ver o estado de agonia dele durante os 12 episódios foi o suficiente, porque a consciência culpada meus amigos… é uma punição terrível. Quando esse homem lembrava de algo, ou ouvia algo, ele sofria tanto, mas tanto que eu podia ver através dos olhos dele. Aproveito para dizer: que atuação Kim Sung Gyu!

E uma menção honrosa para a Kim Ji Soo, que aparece pouco, mas ainda deixa seu impacto. A Park Joo Hyun é uma nova atriz, mas muito talentosa.

Ainda não mencionei, mas preciso: Eun Joo (Lee Sang Hee) é melhor amiga da Han Seo Woo e dona da pensão que elas moram. Assim como todos os personagens nessa história, ela também vai passar por momentos que precisa enfrentar com coragem e crescer. Ela é um doce e muito importante para manter Seo Woo de pé e nos dar bons diálogos sobre amizade.

Kim Min Jung (Lee Jung Eun) também aparece na trama para acrescentar qualidade, amor e uma coragem extra para todos os moradores da pensão.

Por fim, tudo em A Piece Of Your Mind é poético, mesmo em meio a tamanha melancolia há beleza. Acho que além da mensagem de cura e amor que o drama transmite ainda podemos interpretar a beleza na complexidade do ser humano e como as pessoas deixam marcas em nossas vidas. Que tipo de marcas temos deixado nas outras pessoas?

“Mas existem algumas pessoas que você conhece de passagem, e você lembra como essa pessoa abriu a porta e entrou, se ela estava sentada ou em pé, ou como vocês começaram a conversar. O tempo não pode apagar o momento que você as conheceu.”

Onde assistir?

Tem A Piece Of Your Mind legendado no Kingdom Fansubs.

Até logo,
Mari.

Designer, publicitária, viciada em gatinhos, café e doramas. Criadora e autora do LoveCode - que publica conteúdo sobre entretenimento asiático há nove anos.

2 Comments

  1. Oi Marii!!
    Confesso que eu não sou amante de melodrama e nem do estilo slow burn, mas nada que tenha uma regra que não exista a exceção, certo? haha Eu sou fã dos trabalhos do Ha In e gosto muito da So Bin, então eu comecei assistir antes mesmo de ler a sinopse e saber que era um melodrama..e que grande surpresa! Foi meu surto doramático entre tantos que estavam passando..me vi apaixonada por cada detalhe da trama, de cada ângulo das cenas, de cada música e como vamos nos apaixonando pelo casal a medida que os sentimentos dos personagens crescem tmbm..
    Enfim, A Piece foi maravilhoso do inicio ao fim, uma pena que não tenham tido a atenção merecida dos espectadores coreanos 🙁
    Como sempre, amei sua resenha e os novos post do blog 🙂

  2. Oi Mari! (:

    Não poderia deixar de comentar nesta resenha, afinal A Piece of Your Mind foi um dorama que me encantou completamente e que merece ser recomendado. Parabéns pela resenha PERFEITA que descreveu tão bem e tão completamente o que essa história significa. E concordo inclusive com todas as análises de personagens. Amei ler a resenha e compartilhar meu carinho por esse dorama com você. Obrigada! <3

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