Quem lembra do tão falado Something In The Rain do ano passado? Não cheguei a fazer resenha dele pois não terminei o drama, mas comentei um pouco no post de melhores do ano. Não como um dos “meus melhores”, mas como um dos populares. Aquele drama foi polêmico e eu quase não vi meio termo, a pessoa amava ou odiava. Simples assim.

E por que estou falando dele nesse post? Bom, simplesmente porque a roteirista Kim Eun, de Something In The Rain resolveu juntar-se novamente com o mesmo diretor Ahn Pan Seok e o mesmo ator protagonista Jun Hae In num novo drama: One Spring Night, o qual é o assunto deste post.

E pra quem viu um, é impossível ver o outro sem comparar e pensar em todas as semelhanças, afinal as características do diretor são bem únicas, e o enredo também possuí algumas similaridades, principalmente na temática sobre dificuldades de um casal ao desconstruir certos pensamentos. É parecido, mas é diferente.Eu não terminei de ver Something porque eu não estava na vibe e alguns problemas do roteiro me fizeram desanimar, mas aqui a questão não é essa, não pretendo fazer um comparativo nesse post. Vou apenas comentar sobre One Spring Night. Então, bora comigo para a resenha.

One Spring Night
봄밤
Episódios: 16 (32 de 30 min)
Emissora: MBC e Netflix
Ano: 2019

Sinopse: A história é sobre um casal que atingiu o ponto do seu relacionamento onde eles começam a pensar sobre casamento, o que os leva a examinar e compreender o amor de outra maneira. Lee Jung In é uma mulher que trabalha como bibliotecária, seu namorado de longa data é um bancário. Mas suas vidas entram em conflito após ela conhecer Yoo Ji Ho, um farmacêutico que é pai solteiro. (Sinopse traduzida do My Drama List)

One Spring Night retrata a história de amor entre duas pessoas que estão longe de ser um casal comum – pelo menos aos olhos dos coreanos, não dos nossos. O protagonista é pai solteiro, a protagonista já está em um relacionamento há alguns bons anos, mas que não caminha para lugar nenhum. O enredo segue então a complexidade desse relacionamento, que não somente deve enfrentar seus pais como também amigos e conhecidos para desconstruir preconceitos e lidar com a pressão da sociedade.

É um drama bem realista que retrata as experiências do casal desenvolvendo um amor que quase ninguém apoia. Há muito drama de fato, e muitos momentos cansativos já que há muito do cotidiano. Situações que eu, por exemplo, já não aguentava mais, pelo fato dos personagens terem que se submeter a coisas absurdas pelos pais ou consideração, por serem julgados e machucados. E esse sentimento de que eu estava assistindo a uma história tão verdadeira, é que me fez continuar. Era tão real que chegava a cansar, mas por ser tão real, me manteve interessada. Apesar das complicações, os momentos doces nos trazem leveza e aquecem o coração.

O roteiro tem um ritmo lento, e romance utiliza do famoso “slow burn” que não agrada a todos – e eu sou uma delas, mas neste drama, consegui acompanhar felizmente. Embora tenha esse ritmo lento, possui profundidade pelos seus excelentes diálogos, que em minha opinião, dão ainda mais realismo à trama e graças aos personagens secundários também, que não estão presentes somente para dar suporte ao casal principal, mas também tem suas próprias histórias e dificuldades, trazendo a tona outras questões morais e problemas de relacionamento.

Talvez para nós, o tema, algumas opiniões e atitudes dos personagens são exageradas, porém não podemos esquecer das diferenças culturais. A história se passa em um país completamente diferente do nosso. Enquanto para nós pode não ser nada difícil de resolver, o pensamento dos coreanos é diferente, principalmente se tratando da geração dos pais dos personagens. A gente não precisa entender ou justificar, somente respeitar.

O enredo de One Spring Night tem uma temática que pode gerar opiniões controversas, já que um dos assuntos é traição, o que no caso, depende muito do ponto de vista de cada um. Enquanto para alguns a traição só ocorre a partir de um beijo, por exemplo, para outros pode ser a partir de um olhar, ou do momento que o coração palpitou por outra pessoa. É um assunto delicado também, que depende muito da interpretação pessoal do espectador.

Lee Jung In (Han Ji Min) tem um namorado há muitos anos, mas ela não é bem aceita pela família dele e eles nunca tocaram no assunto casamento. Com o passar do tempo, a família e a sociedade começou a cobrar isso deles, mas Jung In deixou claro sua opinião de que não queria se casar. Claramente eles se acomodaram muito ao longo do tempo, e o relacionamento estava mais perto do fim a cada dia.

Jung In é uma bibliotecária, ela tem outras duas irmãs e agora também é cobrada pelo pai, que pretende casá-la o mais rápido possível. Por mais que seja parte de uma família conservadora onde o patriarcado está presente, Jung In não compartilha dos mesmos ideais. Mesmo ela tendo mente aberta, vontade e coragem para resolver essas situações pendentes, ainda assim ela é muito julgada por todos ao redor, o que dificulta sua tomada de decisões. E novamente entramos no assunto das diferenças culturais e mais ainda diferenças de personalidade. Não é fácil para todo mundo.

Seu namorado é Kwon Ki Seok (Kim Joon Han), ele é um bancário bem sucedido, vem de uma família bem de vida cujo pai é o chefe do pai da Jung In. Ele não é um homem terrível, mas por ter se acomodado, deixou as coisas esfriarem entre eles, tratando como comum qualquer alteração no relacionamento. De fato, há momentos que dá vontade de chutar o moço pra bem longe, mas isso acontece ao longo dos episódios quando ele fica numa insistência insuportável para segurar o relacionamento que já chegou ao fim. É compreensível a revolta, principalmente pela forma que tudo aconteceu, mas não certas atitudes como ´por exemplo nunca ter enfrentado o pai pela bem do “seu amor”.

Yoo Ji Ho (Jung Hae In) é um farmacêutico dedicado, ele é pai solteiro e é visto pelos seus próprios pais como digno de pena, quem dirá então pela sociedade, né? Por ter sido abandonado pela ex namorada com um filho para criar ele também se sente desconfortável e muitas vezes, compartilha do mesmo sentimento de seus pais, de que será quase impossível encontrar uma namorada que o aceite. Ji Ho é uma pessoa extremamente boa e passiva e provavelmente por evitar passar por sofrimentos novamente, também evita conflitos e não se envolve com ninguém até que ele conhece a Lee Jung In.

Ver Jung Hae In como pai, foi mais doce do que imaginei. Apesar de que tenho uma crítica em relação a isso. Compreendo perfeitamente que o Ji Ho trabalha e que seus pais podem ajudar sim a criar o seu filho, mas às vezes, eu tinha a impressão de que todo o trabalho era dos pais mesmo. Ele ia ver o filho de vez em quando, pelo menos foi o que pareceu. Por mais que estivesse sempre preocupado e prezando pelo bem do filho, para mim, ele podia ser um pai mais presente sim.

Ji Ho se encanta pela Jung In a primeira vista, numa situação cômica e ordinária. A conexão entre eles foi tão forte que eles continuam se encontrando, ou diria também, que eles criaram algumas coincidências.

Ele deixa claro logo no começo o tipo de pessoa que ele é, e o fato dele ter um filho. Ela também deixa claro que está em relacionamento. Porém os sentimentos vão crescendo e se desenvolvendo, claramente com a resistência de todos ao redor.

Embora eu tenha uma certa resistência pela forma como o casal decidiu se envolver, eu também preciso admitir que algumas cenas era impossível não sentir a força daquele carinho e amor que vai crescendo junto com a trama. ♥

A química entre os atores Jung Hae In e Han Ji Min foi ótima. Eu sentia o coração pegando fogo só com os olhares entre eles, principalmente nos primeiros episódios.Foi uma boa combinação. Mas agora torço para personagens diferentes para o Hae In, pois ele só tem feito personagens nesse estilo. Enquanto isso, Han Ji Min já provou ser excelente em qualquer tipo de personagem e novamente estava deslumbrante.

Lee Seo In (Im Sung Eon) é a irmã mais velha da Jung In, ela é uma jornalista famosa, casada e aparentemente vive uma vida feliz, mas não é bem assim. Seu marido é violento e a agride constantemente. Seo In cria coragem para finalmente pedir o divórcio, mesmo sabendo que isso pode afetar sua carreira e que ela provavelmente não terá o apoio do seu pai.

Lee Jae In (Joo Min Kyung) é a irmã mais nova da Jung In, ela é bem diferente das duas irmãs e gosta de viajar e curtir a vida. Por ser a irmã mais nova é um pouco menos pressionada pela família.

E antes mesmo de continuar, quero ressaltar que essas três irmãs são uma preciosidade nesse drama. Personagens femininas marcantes e realistas, cada uma delas tem uma personalidade diferente mas representa alguns tipos de situações que passamos na vida real e o enredo desenvolve o quanto é complicado e difícil lidar com esses problemas. Como serão julgadas não importa o quão inocentes sejam. Mas o que foi ainda mais interessante foi a forma como elas se mantiveram de pé apoiando umas as outras, dando ânimo e coragem para enfrentar tudo de cabeça erguida.

Ainda quero ressaltar entre as personagens femininas a mãe da Jung In (Gil Hae Yeon) e a mãe do Ji Ho (Kim Jung Young), duas mães adoráveis que mesmo em situações de conflito também transmitem inúmeras emoções e aprendizados. E juntas tem uma cena em especial que deixou meu coração tão quentinho.

One Spring Night não tem um antagonista, por mais que alguns personagens sejam dignos de ódio, eles não são os responsáveis por acabar com o relacionamento de alguém ou com a vida de alguém. Os personagens são falhos e imperfeitos, nenhum é 100% certo ou errado, eles são autênticos e reais.

Minha opinião sobre o roteiro do drama ainda é um pouco complicada, apesar de eu ter amado os primeiros episódios não foi assim durante toda a trama. Acredito que o roteiro começou muito bem mas se perdeu um pouco da metade pro fim. O meu problema foi justamente pela minha interpretação de traição. Eu particularmente não gostei do rumo em determinado momento e torci tanto para que fosse um pouquinho diferente nessa questão e em algumas decisões dos personagens. Contudo, gostei muito de outras coisas, e alguns episódios foram melhores que outros e no fim, para mim funcionou, gostei de acompanhar o drama no geral.

Mesmo não gostando de slow burn, gostei do romance lento e profundo, dos diálogos excelentes e realistas, do cotidiano sendo representado de forma poética e da leveza com que o drama caminha mesmo com assuntos tão densos. E gostei mais ainda de debater com as dorameiras sobre o assuntos tratados e entender as opiniões diversas sobre cada tema.

Há muito o que discutir sobre os já citados traição, relacionamento abusivo, monotonia, patriarcado, pais solteiros, liberdade de escolha, bem como a “perseguição” – ou o stalker que o protagonista parece ser no começo da trama, será que se não fosse um Jung Hae In da vida, suas atitudes seriam bem vistas? Enfim, há uma série de pequenos detalhes que fazem parte da ótima crítica que a roteirista nos trouxe. Ou pelo menos nos deixou a liberdade de acompanhar a história e sentir emoções diferentes.

A direção de fato é muito boa, e eu acho incrível o talento desse diretor para capturar as emoções e transmiti-las ao espectador com delicadeza. A trilha sonora também dá um toque especial com músicas em inglês que não possuem o ritmo pop ou as baladas presentes em quase todos os dramas coreanos. Tem o álbum completo no Youtube. Ou nessa playlist do Spotify:

Por fim, acredito que falar de One Spring Night é muito mais do que dizer se ele é um drama bom ou ruim, é sobre percepções.

Se quiser, conte sua opinião sobre o drama nos comentários. 🙂

Onde assistir?

Tem One Spring Night legendado na Netflix e no Subarashiis Fansub.

Até logo,
Beijos, Mari.

Designer e publicitária viciada em café e gatinhos que um dia se apaixonou por cultura coreana e virou dorameira, louca dos sageuks e fã de k-bands. Criei o LoveCode, onde escrevo sobre cultura pop asiática há mais de oito anos.

3 Comments

  1. ANGÉLICA CIRNE Reply

    Eu gostei muito da sua análise do dorama, concordo muito com o que você falou. Não é um estilo que costumo assistir eu sou mais de ação, mas minha filha assistiu e eu vi, e resolvi dar uma chance, maratonei ontem, e como já sabia muita coisa saí pulando as partes do boy lixo e do obsessivo que no final eu já tava com vontade de sacudir pra ele cair na real. Eu gostei no final das contas. Queria um pouco mais das irmãs, da parte profissional delas, fiquei com pena da mais velha sair do trabalho queria vê-la brilhando porque ela merecia, e a doidinha mais sensata da história toda também merecia um pouco mais e o boy dela passar no exame. Mas valeu.

  2. Adorei sua resenha. Também gostei muito da série embora em alguns momentos também tenha tido essa sensação de que perderam meio o fio da meada. Mas no geral achei bem boa. Faz muita diferença um roteiro escrito por uma mulher, né. Adorei a sintonia das irmãs sempre apoiando uma às outras. E , de fato, a cena das mães é linda! Coisa rara em doramas… Única coisa que você esqueceu de comentar foi a criança. Que fofura! Roubava as cenas. Fiquei apaixonada por elezinho!

  3. Esqueci de comentar também se você viu Encounter. Trata também das dificuldades enfrentadas por um casal pra ficar junto. Só que aqui o problema é a diferença de idade e classe social. Bem bonito. Uma poesia. Fica a dica.

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