Lembro de ter reclamado pelo menos 365 vezes em 2018 por não ter quase nenhum drama de época, e cá estamos nós, quase no fim de 2019 — porque o tempo passa voando — e reclamo de não ter tempo para assistir a todos os lançamentos, principalmente os vários dramas de época que foram lançados e os que ainda serão em 2019.

E este, sendo mais um post da categoria “eu deveria ter falado desse drama há um tempão” chegou agora, e na frente de muitos pois eu não queria perder a oportunidade de fazer meu comeback nesse site em grande estilo, não é mesmo? Vamos logo ao que interessa.

“As pessoas são as raízes da nação. Sem raízes, uma nação cairá. Somos meros camponeses, mas não podemos ignorar o fato de que nossa nação está caindo. Então, nós levantamos nossa bandeira da justiça. Salvar as pessoas. Esse é o nosso voto.” – Nokdu Flower

Nokdu Flower é um sageuk baseado em fatos históricos. O tempo da narrativa é justamente nas revoluções que deram origem a um dos momentos mais turbulentos para os coreanos. A trama é repleta de personagens inspiradores, que com suas histórias cativam e emocionam. Os quatro personagens principais estão conectados embora seus objetivos e perspectiva sejam completamente diferentes.

O drama de época que se passa longe dos palácios foca na luta de um povo que está quase sem esperanças. E essa luta é duradoura, sofrida e trágica, no entanto a mensagem que fica é de esperança e coragem.

Nokdu Flower
(Mung Bean Flower)
녹두꽃
Episódios: 48 | Emissora: SBS | Ano: 2019

Sinopse: A história se passa durante a Rebelião Camponesa Donghak, que ocorreu entre 1894 e 1895. Dois meio-irmãos lutam em lados opostos dessa rebelião.
Baek Yi Kang é o primeiro filho de uma família importante. Seu pai é rico e ele é notório como um oficial do governo local. Mas a mãe de Yi Kang é da classe mais baixa. Por isso, ele é menosprezado pelas pessoas. Song Ja In é a única filha do líder de um grande grupo de vendedores ambulantes. Ela é a dona do Jeonjoo Yeokak, que vende mercadorias e também é uma pousada. Ela tem coragem, fica calma sob pressão e é carismática. Song Ja In sonha em se tornar a melhor comerciante em Joseon.
Baek Yi Hyun é o meio-irmão mais novo de Yi Kang. Ele é inteligente, bonito e educado. Ao contrário de Yi Kang, Baek Yi Hyun não nasceu fora do casamento. Ele tem tudo e trata seu meio-irmão educadamente.

Apesar de ser um drama baseado em fatos históricos, o roteiro utiliza os acontecimentos como pano de fundo da trama. Os eventos históricos aqui apresentados, de fato aconteceram, assim como alguns nomes importantes para a história coreana também aparecem ou são mencionados ao longo dos episódios.

Longe de apenas recontar esses fatos, o roteiro prende mesmo pela emocionante e bem escrita história dos 4 personagens principais. O que diferencia Nokdu Flower dos demais dramas de época é principalmente, manter o foco no povoado, mesmo que de forma indiretamente ainda tenha um pouco sobre a realiza, quase toda a trama é focada nos interesses dos plebeus, onde os personagens principais são “gente como a gente”.

Além de envolver bem os personagens numa fabulosa história de coragem e determinação, um dos melhores pontos do roteiro é percorrer um longo caminho sem se perder. Embora 48 episódios pareçam pouco para o tanto de tempo e acontecimentos que se passam ao longo dos episódios, o drama deu conta de segurar e desenvolver bem toda esse rico conteúdo. Os primeiros episódios fazem uma apresentação dos personagens — e nesse momento, nem parece que a história vai chegar onde chegou — mas de batalha em batalha, partindo do nada, chegam até o início do período colonial japonês. E acredite, é sensacional acompanhar cada minuto de tudo isso. Cada gota de suor do povo, cada lágrima derramada e principalmente, cada sorriso naqueles rostos cansados, mesmo depois de ter o coração partido inúmeras vezes.

Para quem gosta de história, com certeza, o aproveitamento é ainda maior.

A Rebelião Camponesa Donghak, também conhecida como Revolta Camponesa de 1894, foi uma rebelião liderada por camponeses e seguidores da religião Donghak que ocorreu em Joseon em 1894. Eles defendiam a igualdade humana, acreditavam que “todos os humanos são divindades”, sem ninguém mais especial que ninguém. Os conflitos totalizaram um número altíssimo de mortos em batalhas e é sem dúvidas, um dos mais marcantes momentos históricos da Coreia.

O líder da revolta foi Jeon Bong Joon, entre os protagonistas ele é o único dos que realmente existiram. Na trama é interpretado por Choi Moo Sung. Na verdade, ele talvez nem seja considerado personagem principal em alguns sites como Asianwiki e My Drama List, mas para mim, ele é sim protagonista. Um personagem admirável embora tenha falhas assim como todos os outros personagens — e isto é ótimo!

Jeon Bong Joon é teimoso no bom e no mau sentido da palavra. Odiava quando sua teimosia o impedia de dar um passo além, principalmente quando se tratava de questões e relacionamentos pessoais, mas ao mesmo tempo sua teimosia também podia se transformar em determinação, e que determinação meus caros! Quando esse era o caso, então eu amava essa teimosia. Bong Joon foi realmente um excelente líder, sempre centrado e com o cuidado de que pessoas e sentimentos não atrapalhassem seus avanços. Já adianto que a primeira impressão dele talvez não seja muito agradável, mas ele se mostra um grande e respeitável homem.

Limites estão apenas em sua mente.

Baek Yi Kang (Jo Jung Suk) é o filho mais velho de uma família que não é das mais importantes mas ainda tem um bom status social. O problema é que ele é filho da empregada, e por isso, não é reconhecido como um membro oficial da família e é tratado com desdém por todos. Para compensar ele cresceu nesse ambiente de competição, onde tornou-se agressivo a fim de que as pessoas pudessem respitá-lo, o que na verdade resultou em ódio. Por onde quer que ele vá, é temido sim, mas as pessoas também gostariam que ele desaparecesse.

A construção do personagem de Yi Kang é uma das minhas favoritas, já que ele inicia na trama com uma personalidade muito forte, mas seus pontos de vista não eram muito claros. Apesar dessa confiança toda transmitida pelo personagem, ainda assim haviam momentos de dúvida, de medo e de coração partido pela rejeição e discriminação. Yi Kang vai encontrar seu lugar com o passar dos episódios, descobrir mais sobre ele mesmo e o no que realmente acredita.

A única pessoa que o respeita e o ama é seu irmão mais novo Baek Yi Hyun (Yoon Si Yoon). Embora não sejam filhos da mesma mãe e tenham sido criados de forma completamente diferentes, o companheirismo esteve sempre presente. Baek Yi Hyun é claramente o filho mimado e orgulho da família, mas ele tem um bom coração — ou, não, depende — . Yi Hyun pode não ser alguém por quem eu torci muito, nem aquele que adorei como pessoa, mas sem dúvidas, é o melhor personagem quando falamos de construção e crescimento. Sua história é repleta de plot twists que são bem escritos, transformando o personagem da água pro vinho de forma que ele não se perca, nem fique fora do contexto da trama.

Tudo no Yi Hyun é um tanto ambíguo e imperfeito, enquanto eu poderia sentir pena e amor também senti ódio e tristeza. O personagem só comprovou o que eu já tinha sabia, Yoon Si Yoon é um ator talentoso demais e exala ainda mais todo esse dom em personagens como esse. Eu diria vilão, e ao mesmo tempo não. Simplesmente esplêndido!

Song Ja In (Han Ye Ri) tornou-se uma das minhas personagens favoritas em sageuks. Ela não é nem a clichê princesa ou donzela em apuros, também não é parte da realeza, e mesmo vindo de uma família bem de vida, sua paixão é trabalhar. Como também dona do grupo de vendedores ambulantes e dona da pousada, ela é uma negociante nata. Ela é inteligente e sabe bem como fazer os melhores negócios, mesmo no meio das crises durante as revoluções, ela sempre arruma um jeitinho de sobreviver.

Ja In acaba no meio dos dois irmãos, mas em Nokdu Flower, esse trio de protagonistas não se trata de um triângulo amoroso, mas de relacionamentos infinitamente mais interessantes. Ja In assim como os outros personagens citados tem um ponto de vista muito claro e muito único de toda a situação que envolve a nação. Ela não está do lado de nenhum dos citados até agora, afinal ela é uma comerciante e uma das pessoas mais afetadas pela crise que vem chegando. Sendo assim, “esse 4º ponto de vista” é mais um para manter o crescimento da trama de forma que nos prende em cada detalhe dos conflitos de interesse.

Como esses quatro personagens tão distintos podem estar ligados e até que ponto da guerra eles estarão firmes? Até que ponto serão amigos? Até quando serão inimigos? A história acompanha como suas vidas mudam após os acontecimentos da rebelião camponesa.

Lembrando que Nokdu Flower tem muitos outros personagens capazes de conquistar o telespectador. Eles tem suas próprias histórias e importância. Os guerreiros aliados a Jeon Bong Joon, então são aqueles secundários que é só tocar a OST e já lembramos do quanto foram leais e especiais. Muitas vezes foram o alívio cômico — necessário para manter nossa sanidade — e muito bem inserido, mas também foram responsáveis pela emoção infinita nos grandes momentos históricos.

A mãe do Yi Kang, Yoo Wol (Seo Young Hee) também é marcante e batalhadora em todos os sentidos da palavra. Se destacou demais na história, uma das melhores personagens femininas. Não posso deixar de citar também a snipper maravilhosa que faz parte do grupo revolucionário. Ela é uma das principais atiradoras, e a única mulher dessa linha de frente que vai mesmo a luta, não tem medo do perigo e é a mais talentosa no que faz. Sua história me comoveu até o fim.

O romance está presente na trama de forma muito sutil. De fato, não é o foco principal e nem o motivo pelo qual me prendi. Há muitos outros elementos na narrativa capazes de nos emocionar. Esses dois casais dos gifs acima são complexos, mas Yi Hyun e Hwang Myung Sim (Park Gyu Young) tem um relacionamento muito mais cruel, para não dizer outra coisa. Se você pensa em romance feliz de ver coraçõezinhos saindo da tela, pode esquecer. Até mesmo Yi Kang e Ja In não são doces o tempo todo e tudo acontece bem lentamente ao longo dos episódios. É um romance natural e leve. Mas vale a pena acompanhar o desenvolvimento de ambos.

Ainda sobre os irmãos, ouso dizer que também é um dos melhores desenvolvimentos de relacionamento entre irmãos que pude acompanhar. Primeiramente porque tudo que eles fazem, todas as suas escolhas terão consequências irreversíveis. Ambos tinham um respeito muito grande pelo pai deles, mesmo que este tenha sido uma pessoa cruel e extremamente sem amor. Ele não merecia absolutamente nada do amor que recebia dos filhos. E mesmo nessa situação de rivalidade causada pelo próprio pai, os irmãos Yi Kang e Yi Hyun se respeitavam e se protegiam. Eles se preocupavam um com o outro, mas infelizmente a nação entrou em caos e cada um teve que cumprir seu papel na sociedade.

Acontece que mesmo em meio a esse caos e a rivalidade que passou de uma simples posição familiar para um importante papel no meio das revoluções, os sentimentos de irmãos estavam presentes e vez ou outra era impossível controlar a dor ao perceber que tudo havia mudado. Aqui deixo meus elogios novamente a esse roteiro tão perfeito, que explorou um relacionamento que não simplesmente começou e acabou do dia pra noite. E também um elogio aos atores que transmitiram todo esse sofrimento com muita competência.

Quando digo que o roteiro é perfeito, é porque é mesmo. Poucos k-dramas conseguem essa proeza de equilibrar bem todos essas perspectivas de personagens, principalmente quando esses não são heróis nem vilões, protagonistas ou antagonistas. Eles simplesmente precisam escolher um lado, e cada um tem suas razões.

Outro ponto muito importante do roteiro foi utilizar do recurso dos acontecimentos como background e inserir a história magnifíca dos irmãos. Claramente podemos associar esses conflitos a muitas pessoas que vivenciaram tudo aquilo. Viver num período caótico como esse, resulta em muitas perdas e decepções até mesmo com pessoas que sempre confiavam umas nas outras. São momentos onde podemos enxergar a verdadeira face de cada um. Momentos onde “ogros” — a referência para quem já viu — surgem e máscaras caem. Mas em compensação, também podemos enxergar alguns anjos.

Em questão de produção podemos perceber que a SBS investiu muito no drama, todos os detalhes são feitos com capricho e as cenas são lindas, principalmente as de guerra, que envolvem muitos personagens, lutas, trilha sonora e uma fotografia impecável. Chorei muitas vezes com as emocionantes cenas do povo reunido lutando ao som de Forestella. Que emoção, minha gente!

As cenas de luta e ação também são de qualidade, prezando sempre por detalhes. A direção é de Shin Kyung Soo, mesmo diretor de Six Flying Dragons e quem já viu, sabe o quão bem feito é, e quem não viu, provavelmente já deve ter me visto elogiando o drama inúmeras vezes.

Abaixo o vídeo da OST Part. 1 de Forestella:

Por fim, em Nokdu Flower, nem tudo são flores, mas cada segundo do drama transmite emoções e lições de coragem e fé. Sem dúvidas, um dos melhores dramas de época, e tornou-se um dos meus favoritos.

Fica a recomendação com muito carinho. É um drama bem único e garanto, que ao final, é capaz de te fazer sorrir.

“A guerra vem do ódio, mas essa luta vem do amor.”




Curiosidades

  • Já que o drama é do mesmo diretor de Six Flying Dragons, o ator Yoon Kyung Sang faz uma participação especial.
  • Alguns nomes dos personagens que realmente existiram na história coreana, aparecem no drama e também são mencionados em Different Dreams, drama que foi ao ar este ano pela MBC (e logo logo terá resenha aqui), sobre o período colonial japonês. O interessante foi que os dois dramas encerram a exibição praticamente juntos e mesmo sendo de emissoras diferentes, acabaram sendo conectados pelo tempo da narrativa. Novamente, para quem gosta de história coreana, isso é fantástico.

Onde Assistir?

Tem Nokdu Flower legendado no Unnie Fansubs.


Até logo,
Beijos, Mari!

Designer e publicitária viciada em café e gatinhos que um dia se apaixonou por cultura coreana e virou dorameira, louca dos sageuks e fã de k-bands. Criei o LoveCode, onde escrevo sobre cultura pop asiática há mais de oito anos.

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