Raramente venho escrever sobre dramas chineses e o motivo é que eu raramente assisto aos c-dramas mesmo. Num belo dia, eu estava passeando pelo catálogo de dramas asiáticos da Netflix quando um deles me chamou atenção pelo título: “The Rise of Phoenixes”. A palavra “phoenixes” me deu a impressão de ser um drama com personagens marcantes, e quando assisti ao trailer, meus olhos não conseguiam desgrudar da tela ao ver cenas tão belas e uma história aparentemente promissora.

The Rise of Phoenixes é sobre poder, vingança e amor. Se passa na antiga China, onde duas pessoas destinadas ao ódio e ressentimento se erguem para cumprir seus objetivos, mas seu envolvimento pode se tornar muito mais perigoso quando um romance também está em jogo.

The Rise of Phoenixes
天盛长歌
Episódios: 70 | Emissora: Hunan TV | Ano: 2018

Sinopse: Feng Zhi Wei é a filha ilegítima desfavorecida da Família Qiu, que é banida do clã depois de ser falsamente acusada de um crime. Zhi Wei se veste de homem para frequentar a prestigiada Academia Qingming e surpreende o mundo com seu talento e conhecimento. Ela permanece leal e honesta ao imperador reinante durante a luta dos príncipes pelo trono, mas logo descobre que ela é a única realeza sobrevivente de um reino caído. Manipulada a pensar que a dinastia atual foi construída sobre os cadáveres de seus entes queridos, Zhi Wei finalmente decide se vingar de seus inimigos, incluindo seu amante Ning Yi. Eles serão capazes de colocar sua vingança para trás e viver uma vida sem ódio?
(Sinopse traduzida do My Drama List)

Apesar de ser uma série “original Netflix”, é uma adaptação da novel Huang Quan de Tianxia Guiyuan.

Antes de começar a falar sobre qualquer outra coisa, preciso comentar sobre o roteiro que é sem dúvidas, o ponto mais crítico desse drama. Primeiramente porque é uma longa história —literalmente—, são 70 episódios de 45 minutos cada, então há tempo de sobra para desenvolver uma ótima história e ainda enrolar um bocado.

Não é um roteiro perfeito, além de ter algumas falhas, certos episódios são cansativos comparados a outros, principalmente quando os mesmos focam demais em extensos diálogos de personagens secundários sobre política. Coisa que o espectador não espera e nem quer ver por tanto tempo.

Segundo que o maior clímax da trama, chega mesmo nos últimos episódios, e este trazendo uma reviravolta tão absurda que pode fazer perder a graça de ter passado cerca de 60 horas da sua vida assistindo a este drama. Em tempo, quero deixar claro que há sim inúmeros plot twists ao longo dos episódios, e como já disse, alguns em especial são incrivelmente bons, então sim, é um ritmo bem inconstante mas o drama no geral, tem seus pontos positivos. Acredito que tudo que acontece ao final da trama, pode ser considerado “bom ou ruim” puramente pelo gosto pessoal de cada um.

A minha opinião é que poderia ter sido melhor. A história tinha um grande potencial, foi crescendo muito, mesmo que lentamente, mas podia ter um final perfeito. E para mim, foi corrido e impensado. Se trágico ou não, isso realmente não me importava, já me preparei desde o início porque todos sabemos que a maioria dos dramas de época chineses são assim. O que eu queria mesmo era um final digno para os protagonistas que de fato foram marcantes e tiveram um ótimo desenvolvimento.

Em contrapartida, nem tudo é ruim no roteiro, e posso citar alguns pontos positivos, como a forma que foi escrito pensando num espectador inteligente que tiraria suas próprias conclusões de certos acontecimentos. Da mesma forma que também inseriu personagens densos, que mesmo em meio aos furos de roteiro, conseguiram se destacar e muito.

A história de The Rise Of Phoenixes gira em torno de Ning Yi e Feng Zhiwei, que se conhecem quando estão escondendo sua verdadeira identidade, e acabam se envolvendo mais ao continuar se encontrando em situações ordinárias, porém logo viram parte de um plano maior de vingança.

Ning Yi e Feng Zhiwei não são protagonistas bonzinhos, mocinhos e perfeitinhos. Eles são personagens falhos com atitudes duvidosas. Sendo Ning Yi ainda praticamente um anti-herói. Suas ambições são similares, mesmo sendo de mundos completamente opostos. Tão opostos que mesmo sem saber eles são inimigos, e quando chegar o momento certo, essa descoberta pode ser incrivelmente trágica.

A temática é de poder, desejo e vingança com uma pitada de romance na antiga China, passando por diferentes reinos e clãs. Uma trama um pouco complexa no começo, principalmente porque a história demora muito para desenrolar e perde-se muito tempo com alguns personagens que não acrescentam em nada. Mas também é compreensível, pois dessa forma podemos acompanhar uma introdução detalhada dos protagonistas para enfim podermos entendê-los ainda melhor.

Ning Yi (Chen Kun) é um dos vários príncipes do reinado atual, mas diferente dos seus irmãos, teve uma infância turbulenta, cresceu no meio de jogos de poder, de humilhação e de muitas dificuldades já que sua mãe foi acusada de traição. Ele é um personagem com muitas camadas e quanto mais o conhecemos mais podemos entender suas atitudes e perceber o quão inteligente este homem é.

Seu relacionamento com os irmãos é na maioria das vezes, de competição, mas ele também se finge de bobo para manter aparências, enquanto seu relacionamento com seu pai é uma mistura de ressentimento, respeito e até mesmo um desejo incurável de ter um pai que se importe com ele.

A verdade é que por trás de todo esse ressentimento, ódio e dor, Ning Yi esconde um coração bondoso que se importa com as pessoas que ele percebe que são realmente boas. Ele é manipulador, habilidoso e tem objetivos de chegar até o trono para descobrir os segredos escondidos, banir os interesseiros e criminosos e ainda fazer vingança.

Chen Kun é um ator fenomenal que interpretou tão bem esse personagem complexo. Nos primeiros episódios me enganou direitinho e me fez achar que seria um completo idiota, mas ele muda da água pro vinho e de forma muito expressiva e com maestria consegue mostrar o debochado, habilidoso e charmoso príncipe.

Feng Zhiwei (Ni Ni) é uma protagonista marcante e capaz de nos encantar mais e mais a cada episódio. Ela cresceu como ninguém. Apesar de já iniciar na trama como uma garota de personalidade forte, Feng Zhiwei se mostra habilidosa, inteligente, guerreira e pronta para enfrentar qualquer coisa. Ela foi criada sem saber muito do seu passado, mas ao descobrir que fazia parte da realeza de um reino caído, e que seus familiares sofreram tanto, ela coloca seu coração e sentimentos pessoais em segundo plano para seguir com uma vingança que pode trazer ainda mais feridas.

Alguns momentos de sua trajetória são um pouco frustrantes pela forma como a personagem foi escrita. Eu particularmente não gostei muito desse arco dela ser influenciada por família e amigos que faziam parte do seu clã para ser quem ela é. Eles não queriam a forçar de nada, mas acabavam forçando. E claramente, ela não tinha muitas escolhas, afinal não sabia da verdade e foi empurrada no meio de tudo. Mas mesmo assim, ainda teve muita força, e relutância quando via que algo não fazia sentido. Então sim, sem dúvida alguma, Feng Zhiwei é uma personagem brilhante.

A atriz Ni Ni é maravilhosa em todos os sentidos da palavra. Sua atuação me cativou tanto. Ela é natural, como posso explicar? Há alguns atores chineses que acho um pouco exagerados, mas ela é plena em todos os momentos, porém sempre expressiva e confiante. E vamos ser bem sinceros aqui, que mulher linda!

Alguns personagens secundários são quase como protagonistas e têm suas próprias histórias. Gosto muito de quando eles estão presentes para acrescentar e não apenas para apoiar os protagonistas. No caso de The Rise of Phoenixes, Ning Shi Zheng (Ni Da Hong) o imperador de Tiansheng não é como qualquer rei dos dramas recentes que é colocado como um inútil. Ele é de fato muito inteligente, tem opinião forte e é muitas vezes o empecilho de Ning Yi. Eu não o consideraria um antagonista, porque ele nem sempre faz o que faz puramente por motivos banais, ele sempre tem boas razões apesar de tudo. Ele também foi colocado como uma pessoal real. Ele sofria pelos filhos, pela guerra entre eles, pelos crimes cometidos, e sempre quis justiça acima de todas as coisas.

Xin Zi Yan (Zhao Li Xin), ou conhecido como diretor Xin, é o melhor amigo de Ning Yi e uma das pessoas mais confiáveis do imperador. Ele é o diretor da Academia Qingming, a responsável por treinar os mais moços mais inteligentes de Tiansheng. Diretor Xin é um dos melhores personagens sim, sendo mais sensato que Ning Yi, e muitas vezes mais inteligente pensando e agindo com cautela e muita lábia. – Adorava como ele era capaz de convencer as pessoas facilmente.

Gu Nan Yi (Bai Jing Ting) é o guarda-costas da Feng Zhiwei, e eu pararia a descrição por aqui se ele não fosse praticamente um anjo na vida dessa mulher. Mesmo com sua personalidade introvertida e centrada, ela era uma das poucas pessoas com quem ele se dava realmente bem, e pôde criar uma amizade bonita. Ele a ouvia, e estava sempre pronto a ajudar, além de ser o melhor guarda-costas, espadachim e guerreiro que alguém poderia ter ao seu lado.

O que também é bem interessante, é que a história vai avançando tanto que aparecem outros reinos próximos a Tiansheng e com isso, novos personagens o tempo inteiro. Cuidado para não se apegar demais, por mais simpáticos que sejam. Aviso dado.

Devido ao aparecimentos dos reinos vizinhos, também podemos acompanhar outros arcos na trama, como aliados vizinhos, problemas do passado para serem resolvidos, mais política e até uns triângulos amorosos. Mas o que eu gostava de ver mesmo, era a diferença de costumes e roupas, que a produção fazia questão de mostrar nos detalhes.

O relacionamento de Ning Yi e Feng Zhiwei cresce igualmente como eles crescem individualmente. Algo que começa como o acaso, e se torna frequente, logo tornando-se como o destino. Nós espectadores sabemos o quão complicada é sua relação desde o início, mas eles não, e esse envolvimento que cresce com a trama, cresce também em nossos corações.

Não espere ver cenas de beijos e skinship. O romance de The Rise of Phoenixes não é feito dessa forma, mas é intenso, ardente e pode ser mais sofredor do que em qualquer outro drama de romance. A química entre os atores funciona tanto que mesmo que não fossem um casal, ainda assim ficaria evidente essa chama que esses dois personagens têm, seja por amor ou pelo ressentimento.

O que eu gostava muito no relacionamento deles é que eles eram homem e mulher na antiga China, onde todos sabemos, que as mulheres nessa época eram tratadas de qualquer jeito. E Ning Yi sempre apoiou e respeitou todas as decisões da Zhiwei, por mais loucas que fossem aos seus olhos.

Uma opinião muito sincera aqui e um tanto desesperadora de uma dorameira em apuros: Príncipe de Chu e Zhiwei vocês quebraram meu coração em pedacinhos, estão felizes?!?! Por que tão lindos e tão complexos!?


Agora, lembra do que falei lá no começo do post? Os cenários são belíssimos! Seja os montados com chromakey até os reais. Todos eles são incrivelmente perfeitos e detalhistas. Foi uma das coisas que me fez apaixonar no trailer e que continuou me cativando tanto episódio. Então se a história começava a ficar lenta eu pensava “continua pelas lindas cenas” e dessa forma não me desapontei. Os figurinos eram igualmente lindos. As jóias e acessórios que as mulheres usavam no cabelo e nas roupas, que coisa mais preciosa. Produção impecável das cenas mais simples às mais complexas.

Talvez eu tenha te deixado na dúvida, com este post. Ou não, né? Mas sempre que me perguntam se esse drama vale a pena, eu exponho logo que o roteiro tem suas falhas, principalmente nos episódios finais, mas que eu gostei muito de acompanhar, gostei, isso é fato. Fiquei viciada, parei tudo que eu estava vendo, para terminar esse mais rápido. Sofri, chorei, sorri e sofri de novo. As 60 horas que gastei assistindo foram compensadas por ser algo bem marcante nos seus extremos. Marcante pelo abismo que o roteiro se jogou no final e também marcante pela beleza e personagens sensacionais.

The Rise Of Phoenixes pode ter seus defeitos, mas é sem dúvidas um dos melhores dramas de época que já assisti.

— Não podemos mudar nada agora. Só podemos seguir em frente.
— Mas você precisa saber, que desistir e seguir em frente são duas coisas diferentes.


Assista ao trailer:

Onde assistir?

The Rise of Phoenixes está disponível legendado na Netflix.

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Designer e publicitária viciada em café e gatinhos que um dia se apaixonou por cultura coreana e virou dorameira, louca dos sageuks e fã de k-bands. Criei o LoveCode, onde escrevo sobre cultura pop asiática há mais de oito anos.

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