Bom dia, boa tarde, boa noite, boa madrugada quarenteners! aqui é a Edna, a pedidos de muitos, resenhando Hell is other people. Sim, eu como admiradora de Im Siwan desde Misaeng (Vida Incompleta), me desafiei a ver este terror psicológico (mesmo tendo aversão a terror!) por ser um papel tão diferente dos que ele já havia feito e sendo o primeiro projeto após sua volta do exército.

Além disso, quero explicar um ponto de vista da história, pois andam tendo alguns mal entendidos poraí em razão desta obra de 10 episódios, adaptada do webtoon de mesmo nome, ter sido feita pelo trevoso canal OCN, conhecido por dramas com espíritos malignos e exorcismo. Mas Strangers from hell aka Hell is other people tem mais a ver com a filosofia de Jean-Paul Sartre do que com almas penadas, pois trata sobre até onde a perversidade humana pode alcançar, aplicada a personagens VIVOS e MUITO VIVOS.

Quer entender esta viagem filosófica e porque valeu a pena assistir a tudo? Vem comigo e põe essa OST de qualidade pra tocar

STRANGERS FROM HELL (타인은 지옥이다)
TAMBÉM CHAMADO: HELL IS OTHER PEOPLE, others are hell
EPISÓDIOS: 10 EMISSORA: ocn
EXIBIÇÃO: AGO-OUT / 2019

Sinopse: Yoon Jong Woo é um jovem que viveu numa cidade pequena a vida inteira, mas consegue um emprego num pequeno escritório em Seul através de um colega de faculdade. Enquanto procura um lugar para morar, ele se depara com o Goshiwon Eden, um prédio de apartamentos baratos, que compartilha a cozinha e o banheiro com outros moradores. Ele não está empolgado com a qualidade do local ou com os outros residentes suspeitos, que lhe deixam desconfortável. No entanto, Jong Woo decide aguentar isso por 6 meses até economizar dinheiro suficiente para sair dali. Eventos misteriosos começam a ocorrer no apartamento, fazendo com que Jong Woo comece a temer os seus vizinhos. (Mydramalist sinopse, adaptada).

Como é de praxe, vou comentar dos personagens principais e depois contextualizar a história, explicando o porquê Hell is other people pode ser lido como um terror psicológico de forte mensagem filosófica, diferente dos outros títulos que envolvem espíritos, fantasia e mistério do canal OCN, aos quais muitos estão acostumados em ver ou ao menos ouvir falar.

Yoon Jong Woo

A trama se inicia na jornada de Jong Woo atrás de um local pra morar até encontrar esta tal quitinete chamada Eden Goshiwon (em coreano goshiwon é uma espécie de quartinho com espaço ultra limitado, apenas cabendo uma cama, criado mudo ou mesa e guarda roupa, geralmente alugados para estudantes e pessoas de baixa renda que precisam se isolar). Com quase nenhuma entrada de luz, ventilação, tudo muito sombrio, sujo, quase infernal, desde o ventilador quebrado sobre a recepcionista até as inúmeras portas proibidas no prédio que já sofrera até um incêndio em um andar inteiro e ainda não tinha sido reformado, tudo dizia É UMA CILADA BINO! Mas aquele goshiwon tão insalubre e de vizinhos bizarros era o único lugar o qual ele podia pagar no momento, o metro quadrado mais barato na cidade, para alguém só queria ter uma vida de proletário normal e um lugar pra descansar após uma rotina de trabalho desgastante, com colegas nada simpáticos.

Im Siwan foi brilhante em dar vida a um personagem tão cheio de inseguranças, que mesmo tendo uma namorada e a atenção de sua mãe, a qual sempre lhe telefonava, foi ficando cada vez mais estressado, frustrado e frágil longe de casa. Ele encontrava consolo em escrever ficções sobre crimes e era fascinado por histórias de serial killers e seus métodos de assassinato, porém jamais poderia imaginar que cairia de paraquedas no olho furacão daqueles sobre os quais tanto escrevera um dia.

Seo Moon Jo

Antes de mais nada, Lee Dong Wook, muito obrigada por escolher esse papel. Muita gente também escolheu assistir Hell is other people no ar, assim como eu vi por conta do Siwan, em razão de este ser o primeiro drama com Lee Dong Wook interpretando um vilão, em um gênero thriller. A interpretação de Seo Moon Jo não deixou em nada a desejar e tenho certeza que ele ficou satisfeito com o resultado de ter assombrado a mente de muitas pessoas.

Seo Moon Jo começa com uma incógnita, um médico misterioso e aparentemente normal, apesar de suas olheiras profundas e sorriso macabro. Ao longo da trama se percebe que ele possui um certo controle sobre os outros moradores do Eden Goshiwon: a recepcionista de sorriso macabro, os gêmeos, o viciado em pornografia, o gângster, enfim qualquer pessoa que punha os pés no local. Cada personagem tem uma ligação direta com Moon Jo, todavia, a chegada de Jong Woo provoca toda uma movimentação deste personagem, uma fascinação estranha e quase obsessiva sobre aquele rapaz (gerando inclusive uma espécie de ship/bromance bizarro e largamente alimentado por fanfics e fanarts de Moon Jo e Jong Woo! experimentem jogar na pesquisa de imagens “Stranger from hell Moon Jo fanart” após terem concluído o drama pois é SPOILER PURO, mas tem muita fanart linda de morrer (o__o)).

Em razão de banheiro, copa e cozinha serem compartilhados tendo apenas o quarto como parte privada do prédio e a única parte realmente ventilada ser a velha laje, é nestes locais onde a trama se desenrola. O consultório do Moon Jo também foi um local à parte nesta adaptação, uma vez que no webtoon não se menciona a existência de um dentista de modo tão claro quanto no drama. Esta dúvida fica pairando nos primeiros episódios e sustentou o primeiro plot twist, da onde partem os demais fios a serem desenrolados. A teoria rolou solta e foi de arrepiar, principalmente para quem estava a espera de novos episódios toda semana.

“você esta me filmando?”

“o inferno são os outros” jean-paul sartre

Deixem-me citar este pequeno resumo feito pela redação da revista Superinteressante para contextualizar ainda mais a trama, a qual o webtoon de Kim Yong Ki tanto bebeu da fonte: a filosofia que nossas ações são o espelho da distorção da sociedade, isto é, dos outros.

Estamos condenados a ser livres. Essa é a sentença de Sartre para a humanidade. Para o existencialismo, sua corrente filosófica, a existência do ser humano vem antes da sua essência. Ou seja, não nascemos com uma função pré-definida, como uma tesoura, que foi feita para cortar, por exemplo.

Segundo o filósofo, antes de tomar qualquer decisão, não somos nada. Vamos nos moldando a partir das nossas escolhas. Toda essa liberdade resulta em muita angústia. Essa angústia é ainda maior quando percebemos que nossas ações são um espelho para a sociedade. Estamos constantemente pintando um quadro de como deveria ser a sociedade a partir das nossas ações.

A má-fé seria mentir para si mesmo, tentando nos convencer de que não somos livres. O problema é que nossos projetos pessoais entram em conflito com o projeto de vida dos outros. Eles, os outros, tiram parte de nossa autonomia. Por isso, temos de refletir sobre nossas escolhas para não sair por aí agindo sem rumo, deixando de realizar as coisas que vão definir a existência de cada um. Ao mesmo tempo, é pelo olhar do outro que reconhecemos a nós mesmos, com erros e acertos. Já que a convivência expõe nossas fraquezas, os outros são o “inferno” — daí a origem da célebre frase do pensador francês.

Se pensarmos assim, parece que estamos terceirizando nossas ações a tudo o que for reação do outro, ou seja, como se não tivéssemos autonomia pra decidir o que é certo ou errado… A grande questão que o webtoon e por sua vez o drama, aplica a quem assiste é: uma pessoa seria capaz de sucumbir ao mal se for exposto o suficiente a exemplos de se resolver tudo na base do jorrar de sangue? porque sim, não há espíritos nem exorcismos, mas sangue é o que não falta. Daí ser +19, com cenas bastante gráficas de assassinato explícito, e ao mesmo tempo envolver tudo em antigas teorias, como a do existencialismo.

Cada coadjuvante da trama reflete esta teoria em personalidades, hábitos e aparência muito marcantes. Um elenco escolhido a dedo. Ninguém ali comete torturas ou assassinatos sem motivo (apesar de parecer). Todos tem seus métodos, chegando a acreditar que estão fazendo um favor a sociedade, criando Arte, satisfazendo seus desejos sórdidos de modo objetivo… Nenhum instrumento da lei poderia atender suas vontades. Até onde isso poderia levar sem haver consequências?

O ponto de luz e o gaslighiting

No meio de tudo há um ponto de luz, também não encontrado no webtoon, mas que se torna peça chave no drama: a policial Seo Jung Hwa (Ahn Eun Jin). Ela parece ser um símbolo de esperança na humanidade, chegando até representar certa ingenuidade e empatia diante dos moradores tão bizarros do Eden Goshiwon. Os eventos estranhos que ali ocorrem chamam a atenção da policial, contudo ela parece travar uma batalha sozinha, sem qualquer apoio de seus colegas, que duvidam de suas escolhas. E mais uma vez temos aqui o existencialismo, forçando o livre-arbítrio alheio sobre nossa visão de coletividade e justiça social. Onde a cooperação foi parar?

É incrível como cada episódio dá sinais de que nossa visão, nosso julgamento dos outros, é fruto de várias escolhas e em certa parte da trama parece que já estamos sendo forçados a torcer para que alguns (especialmente os colegas insuportáveis do trabalho do Jong Woo) caiam no olho do furacão dos serial killers porque não merecem viver. O mais interessante é que o último desta trama de 10 episódios – considerando que o webtoon foi muito mais a fundo na questão do terror psicológico, por ter mais capítulos que o drama – se chama Gas-lighting e quero abrir outra reflexão sobre o uso deste tipo de abuso psicológico silencioso.

O gaslighting geralmente se relaciona à violência contra a mulher porém aqui temos um exemplo centrado entre homens, não romanticamente envolvidos (ignorando as viagens loucas das fanfics que avisei, óbvio). Quanto mais estressada e emocionalmente desgastada uma pessoa se torna, mais suscetível a este abuso ela está. É como um gás que penetra os pulmões e silenciosamente vai tomando todo o espaço interno. Neste caso, é uma construção narrativa para se duvidar do próprio julgamento em favor do jogo do abusador, que se beneficia da falsa confiança de quem está sendo abusado, o tornando dependente dele.

Com o estado de dúvida da própria sanidade instalado, muitos abusadores afirmam que suas vítimas se tornaram loucas… mas será que era só loucura mesmo ou parte de um jogo bem construído? Esta é outra questão que o drama entregou com uma fidelidade cruel e sanguinária. Por isso preparem bem o estômago e a cabeça, pois Hell is other people pode até ter tido um final confuso e efeitos visuais duvidosos mas revela bem as mensagens a qual veio apresentar.

da trilha sonora ao instrumental

A OST de Strangers from Hell é de uma qualidade estupenda, com ritmo e letras que guiam a história e fotografia, marcando bastante embora tenha apenas 10 episódios. Até mesmo após terminar o drama, me peguei voltando a estas músicas e percebendo como elas também me contavam histórias. Inclusive, fiquei feliz em ver bandas que admiro, como o The Rose, participando de uma trilha sonora tão intensa.

Dramas que desafiam meu julgamento são importantes para me manter alerta nesta sociedade louca que vivemos… é o paradoxo entre o quanto de ficção e o quanto de real aquela história contou para mim. E deixo as demais visões para vocês.

onde assistir?

Strangers from hell acaba de entrar para o catálogo da Netflix, por esta razão resolvi escrever a resenha que tanto protelei (foi mal a demora galera…). Mas eu assisti através dos fansubs que nunca me deixam na mão, e recomendo a Dramas Revise em parceria com o Kingdom Fansubs.

Edna, de 1993, mistura indie com pop, mas é sobretudo uma designer dramática. Movida por uma curiosidade extrema, após ver um clipe de música colorido numa tv de loja em dezembro de 2010 caiu nesse mundo de Alice do leste asiático e é incentivada por pessoas que amam seus surtos a comentar sobre isso até hoje.

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