Já faz um bom tempo que não venho comentar sobre filmes aqui, mas esses dias tomei vergonha na cara e fui ver um que eu estava querendo assistir desde o final do ano passado.

O filme gerou diversas polêmicas na Coreia do Sul, e se você acompanha um pouco a vida das atrizes sul-coreanas deve ter visto algo sobre essa enorme discussão. O motivo é simplesmente por ser um filme com tópicos feministas e inúmeras críticas sociais. Já sabe de qual estou falando?

Kim Ji Young, Born 1982 é protagonizado pelos atores Jung Yoo Mi e Gong Yoo, que anteriormente trabalharam juntos no premiado filme Train to Busan. O enredo gira em torno de Kim Ji Young e sua vida conturbada como mulher na sociedade conservadora sul-coreana, sua saúde mental é afetada, o que a leva a ter lapsos de fala, como se fosse outra pessoa.

O longa foi indicado a várias categorias em premiações na Ásia, e recentemente a diretora ganhou o prêmio de Melhor Nova Diretora no 56th Baeksang Arts Awards. A atriz Jung Yoo Mi também ganhou o prêmio de Melhor Atriz na cerimônia do 56th Grand Bell Awards.

Kim Ji Young: Born 1982
82년생 김지영
Ano: 2019
Diretora: Kim Do Young
Roteirista: Yoo Young Ah (baseado no livro de Cho Nam Joo)

Sinopse: Kim Ji Young tem um dos nomes femininos mais comuns para pessoas da idade dela. Ela trabalha em uma agência de marketing. Kim Ji Young se casa e tem uma filha. Para que ela possa criar sua filha, Kim Ji Young deixa o emprego. Ela leva uma vida comum até este ponto. De repente, Kim Ji Young começa a falar como sua mãe, sua irmã mais velha e outras pessoas. Ela parece possuída por outras pessoas. O que aconteceu com ela? (Traduzida do My Drama List)

Estreado em outubro de 2019, o longa sul-coreano “Kim Ji Young, Born 1982”, é baseado no controverso livro de mesmo nome da autora Cho Nam Joo, publicado em 2016. É um dos mais aclamados romances feministas do país que explora o significado de ser mulher em uma sociedade patriarcal.

O livro deu início a uma série de importantes debates na Coreia do Sul, além de gerar também polêmica e até movimentos contra o feminismo. Artistas, cantoras e atrizes que disseram ler o livro foram atacadas e intimidadas pelos comentários em sites e redes sociais. Até mesmo quando anunciado o elenco do filme, a atriz Jung Yoo Mi, recebeu milhares de comentários de ódio em seu Instagram. Houve ainda inúmeras críticas e petições para que o filme não fosse lançado.

Se você está lendo este texto e já assiste produções coreanas há um certo tempo, deve saber que feminismo na Coréia do Sul começou a ser mais debatido abertamente há pouco tempo, e podemos ter um pequeno reflexo deste fato nas mudanças em alguns dramas sul coreanos. Comportamentos machistas nas produções sempre foram alvo de críticas do público brasileiro, no entanto uma transformação sutil se iniciou, e de alguns anos pra cá, pudemos ver mais obras retratando o assunto direta ou indiretamente.

Kim Ji Young, Born 1982 conta a angustiante e conturbada história de uma mulher em seus 30 anos. Ela tenta equilibrar o trabalho e família driblando o preconceito e a discriminação de gênero em todas as fases da sua vida.

O interessante é que podemos acompanhar ainda, histórias de mulheres que ela conheceu ou conviveu. Ao longo de sua vida, Ji Young absorve uma série de problemas presentes nesse conservadorismo, e é como se sem nem perceber, ela se torna uma bomba prestes explodir.

A história é capaz de tocar diferentes mulheres, em diferentes idades devido ao fato de explorar as inquietações de diversas personagens, expondo as pressões sociais presentes no cotidiano delas. Os tópicos abordados são muitos: o patriarcado e a preferência pelos filhos homens, a mulher como a única responsável pelos cuidados domésticos e criação dos filhos – ao mesmo tempo que é criticada por ter escolhido a vida “fácil” de criar filhos e não trabalhar fora. Quando opta por trabalhar, é criticada por abandonar os filhos, e que segundo algumas pessoas, pode resultar em crianças agressivas e uma série de outros absurdos.

Também explora questões das mulheres no ambiente profissional, como a desigualdade de salário e o tempo maior de trabalho até chegar numa promoção – e isso quando chegam. O assédio, as câmeras escondidas e o compartilhamento de fotos tiradas sem o consentimento delas.

Apesar de ser uma narrativa que retrata muitas particularidades da cultura sul coreana, ainda é a realidade de muitas mulheres ao redor de todo o mundo. A igualdade de gênero ainda está muito distante. No Brasil, por exemplo, as mulheres ganham em média 20% a menos que os homens. Na Coreia do Sul, a média salarial das mulheres é de 37% a menos que os homens.

Kim Ji Young é interpretada com maestria pela Jung Yoo Mi, que transparece sua dor e emoções mais profundas a ponto de tocar o espectador e fazê-lo sentir suas frustrações e todo o peso que ela carrega.

Através de flashbacks podemos conhecer a fundo a Ji Young e entender a posição atual da mulher na sociedade sul-coreana, que foi representada pelas situações de sexismo que a protagonista experienciou enquanto filha, estudante, funcionária, esposa e mãe.

Desde pequena, Ji Young percebeu que algo estava errado. Enquanto sua mãe sacrificou estudos e trabalhou para pagar o sustento dos irmãos, também pediu desculpas à sogra por ter tido uma filha. Embora a sua própria geração fosse um pouco diferente, ela ouvia desde pequena que as meninas tinham que ser calmas e quietas. Mesmo achando que ela poderia escolher uma vida e profissão que a fizesse feliz, na prática as coisas eram bem diferentes.

Sonhos frustrados, portas fechadas e muito esforço para manter a imagem digna de boa esposa e boa nora. Ji Young não queria nada mirabolante para sua vida, ela só queria poder ter uma família e um trabalho digno ao mesmo tempo. Por que as coisas precisam ser tão difíceis? Por que tanto julgamento social?

Como resultado de tantos questionamentos e indignações, sem poder ser quem ela realmente queria, sem ter sua própria voz, Ji Young desenvolve um transtorno mental que a faz incorporar personas, quebrando seu silêncio obediente e dizendo aquilo que pensa em nome de outras pessoas, principalmente sua mãe e avó.

O caso leva alguns a acreditarem que ela está possuída, porém seu marido Jung Dae Hyun fica preocupado e insiste que ela receba um tratamento psicológico.

Interpretado impecavelmente pelo Gong Yoo, Jung Dae Hyun é totalmente o oposto do personagem que poderíamos imaginar numa história como essa. Ele é realmente um marido atencioso e amoroso. Ele entende os problemas da sociedade conservadora em que vivem, e quando percebe o quanto sua amada foi afetada, ele começa a apoiar a esposa ainda mais. No entanto, seu comportamento também é julgado e questionado pelas pessoas ao seu redor. Como um homem dedicado a sua família, querendo dividir tarefas igualmente pode ser motivo de tanto espanto para os demais? Em seus diálogos e desabafos com colegas homens, e até mesmo na sua família, podemos ter mais exemplos de preconceito e machismo, bem como tabus sobre doenças mentais e a necessidade de acompanhamento psicológico.

A família do Jung Dae Hyun é a prova de como o sexismo está tão enraizado na cultura conservadora sul-coreana, que eles têm alguns pensamentos e atitudes que nem se dão conta de quão ruins sejam – incluindo a mãe dele, por incrível que pareça – mas isso também nos faz refletir que nem sempre esse tipo de comportamento nasce do ódio, mas sim de uma falta de consciência, principalmente nas gerações mais velhas. Por isso, é tão importante que o tema seja discutido e que o ensinamento e a desconstrução desses pensamentos alcance ainda mais pessoas.

Além da temática, algo que prendeu muito minha atenção, é como a história é contada aqui. Mesmo com críticas do início ao fim, as belas e delicadas cenas lidam com os sentimentos pesados da trama, os acontecimentos são dinâmicos para apresentar ao espectador diversas etapas desse processo de construção da personagem principal.

O diálogos são excelentes, mesmo que, na maioria das vezes, sejam simples e sucintos. Aliados a uma cinematografia bonita e com um toque artístico, o objetivo da história é transmitido com clareza e podemos nos conectar emocionalmente com os personagens.

A narrativa nos faz enxergar com os olhos da Kim Ji Young, nos comove e nos convida a refletir sobre a discriminação de gênero, o preconceito e papel da mulher na sociedade. Por mais que nos digam que podemos ser e viver da maneira que quisermos, será que é assim mesmo que funciona no mundo real?

Assista ao trailer legendado:

Onde assistir?

Está disponível pelo Kingdom Fansubs.

Designer, publicitária, viciada em gatinhos, café e doramas. Criadora e autora do LoveCode - que publica conteúdo sobre entretenimento asiático há nove anos.

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